Acho que, se eu não fosse tão covarde, o mundo seria
um lugar melhor. Não que a melhora do mundo dependa de
uma só pessoa, mas, se o medo não fosse constante, as pessoas
se uniriam mais e incendiariam de entusiasmo a humanidade.
Mas o que vejo no espelho é um homem abatido diante das
atrocidades que afetam os menos favorecidos.
Se tivesse coragem, não aceitaria crianças passarem
fome, frio e abandono. Elas nos assustam com armas nos
semáforos, pedem esmolas, são amontoadas em escolas que
não ensinam, e, por mais que chorem, somos imunes a essas lágrimas.
Sou um covarde diante da violência contra a mulher,
do homem contra o homem. E porque os índios estão tão longe
da minha aldeia e suas flechas não atingem meus olhos nem o
coração, não me importa que tirem suas terras, sua alma.
Analfabeto de solidariedade, não sei ler sinais de fumaça. Se
tivesse um nome indígena, seria “cachorro medroso”. Se fosse
o tal ser humano forte que alardeio, não aceitaria famílias sem
terem onde morar.
(Sérgio Vaz. Antes que seja tarde. In: Caros
Amigos, mai./2013, p. 8)
um lugar melhor. Não que a melhora do mundo dependa de
uma só pessoa, mas, se o medo não fosse constante, as pessoas
se uniriam mais e incendiariam de entusiasmo a humanidade.
Mas o que vejo no espelho é um homem abatido diante das
atrocidades que afetam os menos favorecidos.
Se tivesse coragem, não aceitaria crianças passarem
fome, frio e abandono. Elas nos assustam com armas nos
semáforos, pedem esmolas, são amontoadas em escolas que
não ensinam, e, por mais que chorem, somos imunes a essas lágrimas.
Sou um covarde diante da violência contra a mulher,
do homem contra o homem. E porque os índios estão tão longe
da minha aldeia e suas flechas não atingem meus olhos nem o
coração, não me importa que tirem suas terras, sua alma.
Analfabeto de solidariedade, não sei ler sinais de fumaça. Se
tivesse um nome indígena, seria “cachorro medroso”. Se fosse
o tal ser humano forte que alardeio, não aceitaria famílias sem
terem onde morar.
(Sérgio Vaz. Antes que seja tarde. In: Caros
Amigos, mai./2013, p. 8)
